20/04/2012

Balbo e a psicanálise nos olhos de quem vê

Acompanhei a vinda do Balbo a Porto Alegre em 2005 enquanto um estagiário que tinha a incumbência de filmar o evento. Era a minha maneira de conseguir livre acesso e assim matar minha imensa curiosidade de pré-psicanalista em formação. Uma única lembrança ficou. Em uma supervisão de caso clínico, Balbo - cuja experiência com a clínica de crianças autistas ele expõe e teoriza em diversos livros, ou seja, trata-se de um expert no assunto - diagnostica uma criança como "neurótica obsessiva" a partir de um desenho do pequeno paciente que se assemelhava ao intestino humano segundo, é claro, o olhar do psicanalista. Primeiro fiquei chocado de admiração e, depois, chocado com a minha admiração: aquela criança teria conhecimento de anatomia humana, isto é, possuiria uma mínima apreensão imaginária de seus intestinos? E se o tivesse, tratar-se-ia de uma obsessão? E se outro psicanalista visse ali, digamos, minhocas? E se outro ali enxergasse ovários, tratar-se-ia de uma histeria? Foram perguntas que ninguém no auditório pode (se) colocar. Não creio que somos colonos sem crítica o tempo todo, mas garanto que de minha parte foi excesso de transferência - além de muito jovem e inexperiente, não tinha como ver através da figura francófona e imponente que afirmava coisas com tanta convicção e parecia ter a anuência de pessoas mais experientes que ali também estavam. Calei-me. Calamos-nos. Até hoje nada me autorizo a dizer sobre isso, pois não sou um expert na clínica com crianças, sequer atendo crianças tão pequenas, e não tenho vários livros e anos de experiência sobre interpretação psicanalítica de desenhos.
Da topologia de Lacan, porém, eu posso falar.
Nesta semana, 7 anos depois, Balbo voltou a Porto Alegre e lhe foi demandada uma conferência sobre topologia. O conferencista fez o louvável esforço de articulação entre um caso clínico - novamente de uma criança, mas autista - com algo do referencial topológico lacaniano. Sobre o caso, pareceu-me uma leitura muito bem articulada e perspicaz de uma situação clínica desafiadora. Só tive a aprender com Balbo. Na articulação com a topologia, porém, e na maneira como (mal) se justificou após algumas perguntas, só tive a lamentar. Assim como em 2005, Balbo enxergou algo na paciente; dessa vez foi em seu nome que continha o significante tore (toro, em francês) e em um desenho que lembrava uma representação do toro utilizada por Lacan. Primeiro problema: a topologia não trata de figuras, mas de estruturas espaciais e de suas transformações. Que o desenho da criança lembre a imagem do toro e que isso autorize uma interpretação é completamente o avesso de qualquer intenção lacaniana no seu uso da topologia; esta é um esvaziamento do imaginário, um mais-além da imagem, uma tentativa de representação do próprio real. O toro tem infinitas imagens, mas apenas uma estrutura. O seguido emprego do termo "figura topológica" já demonstrava a compreensão errônea que o conferencista fazia da ferramenta. Os objetos topológicos não são o que eles demonstram em suas figuras e isso é elementar; assim como é elementar que o inconsciente não conhece a teoria psicanalítica - e esta ainda conhece pouco o inconsciente. A interpretação de Balbo só aumentou ainda mais essa hiância. Segundo: de que maneira o psiquismo da criança e a maneira como este se manifesta num desenho estariam em acordo com a teoria psicanalítica? Assim como a criança que teria desenhado intestinos sem conhecê-los, de que forma ainda mais estranha teria outra criança desenhado um toro? Como suas representações mentais se encaixariam como luvas à nossa teoria senão a partir das nossas associações
"We won't get fooled again", again.

03/04/2012

A função da vergonha em "Shame"

O filme Shame é um prato cheio esperando os psicanalistas interessados na contemporaneidade, era do vazio ou do individualismo e etc, como queiram. Mesmo a maneira como é filmado constrói em vários momentos imagens que contrastam o protagonista Brandon em suas atividades individuais (correndo na rua ou sozinho no apartamento frio, clean) com o movimento da agitada cidade de Nova Iorque. Seus vínculos são superficiais com as pessoas que o cercam. Até mesmo com sua irmã, aparentemente sua única família. Uma boa imagem do indivíduo moderno, desligado de suas raízes. É a questão da vergonha, porém, que parece levar o filme mais adiante, que o torna menos simples e óbvio.

(atenção: eu praticamente conto todo filme a partir de agora agora!)

Sua, digamos, vida social não é restrita: está seguidamente acompanhado de colegas de trabalho  (no qual é muito bem sucedido) em happy hours onde brinca, interage, aborda mulheres, enfim, participa adequadamente. Uma dessas ocasiões, justamente, parece resumir toda a problemática do filme. Nela o chefe de Brandon, visto pelo protagonista como um pervertido e seguidamente inadequado em sua maneira de abordar as mulheres, investe em uma que conversa ao balcão de um bar com algumas amigas. Brandon vai junto mais para conter o chefe, bêbado, e não permitir que passe muita vergonha com as mulheres - já havia inclusive apostado com seus colegas que seu chefe fracassaria. Como era previsto, o chefe não agrada as mulheres e é ao final da festa levado com segurança até um táxi por Brandon, que está bem, sóbrio, ajudando seu companheiro embriagado. O táxi parte. Já sozinho Brandon está caminhando pela rua e um carro para ao seu lado. É a mulher abordada pelo chefe no bar que lhe oferece uma carona. Logo após aparecem os dois transando na cidade, escondidos em público, anônimos um para o outro e para quem pudesse por ventura observá-los.

Em muitas cenas Brandon aparece se masturbando em frente ao computador, no banheiro e recebendo prostitutas em sua casa. O filme dá a entender que é a sua ocupação principal, aquilo a que mais se dedica. Sua rotina íntima é perturbada quando recebe sua irmã em casa, uma hóspede que já em sua primeira cena causa um imenso susto no protagonista que chega em casa sem saber que lá haveria alguém, que imagina primeiro que se trata de uma invasão, não da presença surpresa de sua irmã - que, por sinal, tinha as chaves do apartamento. Sua vergonha se expressa mais fortemente através das reações terríveis que tem quando a irmã participa de sua vida íntima, ou seja, o surpreende de forma involuntária enquanto Brandon se masturba, por exemplo - situações que o enraivecem e o fazem chamar sua irmã de espiã, invasora e etc. A intimidade de Brandon não pode ser compartilhada e o laço com a irmã falha. Vergonha.
Em outro momento, ele vai jantar com uma colega de trabalho. Um encontro muito diferente dos que tem com mulheres, ou seja, não meramente sexual, em que conversam e se conhecem compartilhando suas histórias. Depois de alguma hesitação (é uma situação diferente e desalojadora para ele), tenta transar com a colega e não consegue, pois não tem uma ereção. Brandon não pode olhar para ela e deixa que ela se retire. Vergonha novamente e mais um vínculo fracassado. Numa cena que logo segue, no mesmo lugar em que estava com a colega, ele transa com uma prostituta em pé e colados na sacada de vidro de um prédio alto, em plena luz do dia, escondidos em público.
Há ainda a sequência na qual o protagonista vai buscar sexo na rua à noite, evidentemente sozinho. Brandon assedia uma mulher acompanhada, apanha, transa com um homem numa boate gay e ainda com duas prostitutas. Esse "submundo" onde é anônimo é onde ele goza mais livremente, mas também onde não aceita ser reconhecido. Pervertido, claro, é seu chefe.

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Finalmente, vê-se que o chefe ocupa um lugar importantíssimo no filme, quase que o negativo do protagonista. Considerado como um pervertido e, conforme dito mais acima, inadequado, o chefe é casado com filhos e mesmo assim não hesita em procurar affairs, tampouco se preocupa em escondê-los. Muito pelo contrário, o faz em momentos em que está com seus amigos e parece que é justamente isso que Brandon não suporta: que o íntimo, o sexual, seja manifesdo e compartilhado pelo chefe de maneira não anônima. Além disso, há uma situação onde o computador de trabalho de Brandon é levado para conserto, pois estava infectado por vírus e pleno de conteúdos pornográficos pesados. Comentário do chefe sobre tal conteúdo, enquanto fala com sua família pelo skype tranquilamente: "mas que tipo de pessoa doentia fica o dia inteiro pensando nessas coisas?". Brandon, é claro, aceita a teoria do chefe de que o responsável é algum estagiário e finge concordar.

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Brandon é um caso típico de homem individualista moderno que não estabelece laços sociais, mas sua vergonha, isto é, seu fracasso em compartilhar seu prazer mais importante e íntimo, não demonstra uma impossibilidade radical comum a todos? Freud afirma que o preço que o homem tem de pagar pela sua entrada na civilização é o recalque ou sublimação de pulsões incompatíveis com a exigência social, inadequadas. Seria Brandon aquele que, por não querer pagar o preço, por não recalcar a pulsão, deve abrir mão do espaço compartilhado onde se restringe a ser apenas adequadoDe um jeito ou de outro, não se escapa do mal-estar. Nem do bem-estar.

05/02/2012

O perigo da história única e "A separação"

Proponho uma aproximação entre o discurso de Chimamanda Adichie, escritora nigeriana, e o filme iraniano A separação (Cuidado: este texto "entrega" detalhes do filme e talvez não seja aconselhável pra quem ainda não assistiu. Mesmo assim, a complexidade das relações entre os personagens e fatos do filme torna impossível qualquer tentativa de resumo).

O filme mostra as complicações de um processo judicial enfrentado por um homem que, durante sua já complexa separação conjugal, é acusado de assassinato após empurrar a doméstica da casa porta afora; agressão que pode ter causado a queda da mulher escada abaixo e queda que, por sua vez, pode ter sido a causa do aborto sofrido pela agredida. O discurso da escritora nigeriana alerta para o perigo do que chama de história única, isto é, a versão unívoca que não deixa espaço para dúvidas, a tomada do clichê pelo todo. Chimamanda cita a ocasião onde um crítico diz que sua literatura não é autenticamente africana, pois descreve africanos dirigindo carros, entre outros hábitos do clichê do homem ocidental. A história única que tal crítico conhece da África a reduz a uma única imagem que em nada corresponde à diversidade de hábitos do continente. Outra experiência da escritora: ao chegar nos EUA para estudar numa universidade, é indagada por uma colega americana que quer conhecer os ritmos tribais que a africana e todos seus conterrâneos - segundo a história única conhecida pela americana - certamente devem escutar.

A separação vai liberando aos poucos vários detalhes (recortaremos apenas alguns) que podem confirmar ou não a culpa do homem, isto é, se seu empurrão causou o aborto. Inicialmente, portanto, há apenas duas histórias únicas. A do réu que - tentando evitar a qualquer custo uma condenação por assassinato - nega ter empurrado a doméstica com força desproporcional ou mesmo saber que ela estava grávida, e a do marido da agredida, homem explosivo, desempregado e devedor ansioso por uma possível indenização, que afirma ser impossível que alguém não notasse a barriga da mulher e que o empurrão nada tenha a ver com a aborto. Curiosamente ou não, são as mulheres do filme - que são a esposa e a filha do réu, uma tutora, as vizinhas do prédio, a doméstica e sua filha - que vão aos poucos trazendo novos fatos, novas verdades que pulverizam as histórias únicas dos homens. A filha e a tutora sabem que o réu tinha conhecimento da gravidez. O réu é, então, culpado? As vizinhas, porém, viram a doméstica caída muito longe de onde teria sido levemente empurrada e afirmam que a escada estava molhada, ela poderia ter escorregado sozinha. Além disso, a doméstica confessa à esposa do réu que foi atropelada no dia anterior, que desde então sentia fortes dores e que o bebê já havia parado de se mexer no útero um dia antes do empurrão. Nenhum exame comprovador foi feito, porém. O réu está absolvido? Descobre-se ainda que ela foi atropelada quando atravessava a rua com pressa para corajosamente buscar o pai do seu empregador (o réu), um velho com avançado Alzheimer que havia saído perigosamente à rua. O acidente aconteceu, portanto, durante o diligente serviço que prestava ao empregador que viria a empurrá-la. Ele é, novamente, responsável?

A história inteira, com todos seus atravessamentos e tensões, acaba por se revelar uma sequência de fatos mais ou menos inócuos, cuja responsabilidade é compartilhada por vários personagens, e que torna a questão da culpa do réu um mero detalhe judicial. Tanto réu como agredida se mostram seguidamente sem convicção sobre que posição devem tomar, qual história única escolher, como se esperassem que testemunhas e juiz decidissem por alguma versão mais coerente, ou seja, que determinassem uma verdade que eles, os maiores envolvidos, por si só não podiam ou sabiam construir.

O que Chimamanda Adichie e A separação mostram - e como podem interessar ao psicanalista? Quanto mais verdades se conhece, menos certezas se tem. A história única é consistente, dogmática, da ordem do imaginário. A história multideterminada e complexificada é furada, tem vários sentidos e ao mesmo tempo nenhum, é da ordem do simbólico que ao relativizar o sentido único descobre um núcleo de real, de inapreensiblidade radical. O que produz uma análise senão o desmoronamento das nossas histórias únicas, a tanto custo montadas e mantidas como defesa à angústia, mas que nos aprisionam numa versão única?

19/01/2012

Estuprar é humano demais

Dando continuação à discussão do momento (e eu acho as discussões "do momento" importantes, conforme já escrevi aqui), sigo o texto do Luciano Mattuella que, por sua vez, segue o do Juremir. Mesmo diante da excelência de ambos textos, arrisco uma contribuição a partir de um trecho do seminário 18 do Lacan (D'un discours qui ne serait pas du semblant, 20.01.71, p. 31 da edição brasileira) ao qual fui imediatamente remetido durante tais leituras:

"É certo que o comportamento sexual humano encontra facilmente uma referência na exibição (parade), tal como definida no nível animal. É certo que o comportamento sexual humano consiste numa certa manutenção desse semblante animal. A única coisa que o diferencia dela é que esse semblante seja veiculado num discurso, e que é nesse nível de discurso, somente nesse nível de discurso, que ele é levado, permitam-me dizer, para algum efeito que não fosse semblante. Isso significa que, em vez de ter a refinada cortesia animal, sucede aos homens violar uma mulher, ou vice-versa. Nos limites do discurso, na medida em que ele se esforça por fazer com que se mantenha o mesmo semblante, de vez em quando existe o real. É a isso que chamamos passagem ao ato, e não vejo lugar melhor para designar o que isso quer dizer. (...) Isso também dá ensejo a esclarecer o que acontece com o que há muito tempo diferencio da passagem ao ato, isto é, o acting out. Este consiste em fazer o semblante passar para a cena, em mostrá-lo à altura da cena, em fazer dele um exemplo".

O Juremir faz alusão a um retorno ao "primitivo" quando comenta o UFC e o estupro no BBB. O que Lacan mostra, porém, é que o estupro - e o mesmo poderíamos dizer da luta livre - é extremamente humano, não se dá fora da cultura, do nível do discurso. Lévi-Strauss, inclusive, afirma que não existe um homem "natural", destacado da cultura, pois é justamente esta que o caracteriza. Quando Lacan fala em queda do semblante, o real, o limite do discurso, não se trata de animalidade - muito pelo contrário! Animais não estupram, não lutam por dinheiro e fama. A comparação da sexualidade humana com a animal realizada por Lacan se dá justamente através da "parade" (exibição, desfile, ostentação). O real não é o animal, a ausência do nível do discurso, mas justamente o impossível que só a linguagem produz.

O que aconteceu no BBB parece curtocircuitar a diferenciação lacaniana entre passagem ao ato e acting out. O estupro seria o rompimento do semblante, da cortesia pré-coito que convida e pede consentimento, isto é, a passagem ao ato enquanto encontro com o real. Por outro lado, o estupro num reality show não poderia ser mais em cena ("sur la scène"), ou seja, o que caracteriza o acting out. O que aconteceu no BBB não é novidade, também acontece fora dele e independe de câmeras e "ai se eu te pego". O filme Kids, lembremos, mostra um adolescente estuprando uma menina bêbada e desacordada e tal evento compõe um contexto específico que o filme produz. Tendo acontecido, porém, com câmeras e com "ai se eu te pego", e sendo a cultura uma malha simbólica, é impossível separar os eventos com uma justificativa relativista. Assim como um lapso não se comete "ao acaso", não é indiferente do contexto que o produz, também um hit musical efêmero ou um estupro num reality show são produzidos por uma cultura que ajudam a compor. Por pior que isto seja.


17/01/2012

Mes vacances avec Camus e "A árvore da vida"

Em "O mito de Sísifo", ensaio sobre a noção de absurdo e correspondente ao romance "O estrangeiro", Camus encontra duas saídas possíveis a partir do que chama de "despertar definitivo": suicídio ou restabelecimentoVale a pena jogar um jogo que já começa perdido?

Camus sugere um divórcio entre o homem e seu mundo. Impulsos que encontram expressão tanto em explicações religiosas quanto em teorias científicas, a nostalgia de unidade e o  apetite de absoluto humanos produzem um apelo por sentido e por uma significação do mundo. Como imagem desse apelo, sugiro as perguntas que os personagens do filme "A árvore da vida" parecem dirigir ao, digamos, "além" diante da perda inexplicável, sem sentido e gratuita do amado filho. Parafraseio assim: "Qual é o sentido disso?"; "O que você está tentando nos ensinar ao nos fazer passar por essa perda?"; "Por que levou o filho bonzinho e não o malvado?"; "Por que, por que, por que...". O mundo camusiano, por sua vez, responde com um arrebatador silêncio. A existência é absurda, é ao acaso. O grito humano encontra uma radical indiferença do mundo. A consciência desse impasse consistiria num despertar do qual o homem não mais pode se curar, um drama cuja força pode aproveitar vivo enquanto irresoluto, como um vazio produtor, ou extinguir através do suicídio. As consequências: a aceitação da finitude, abandono da fé em outra vida possível, desesperança, desinteresse e indiferença em relação ao destino, ao futuro. É o que se observa no personagem principal de "O estrangeiro", blasé mesmo durante o julgamento onde se decide sua morte.

Dito de outra maneira, lacaneanamente, a obra de Camus sobre o absurdo não faz senão elaborar as consequências da castração enquanto reconhecimento da falta no Outro. 

01/12/2011

Por que ler os efêmeros?

O formato "quarto de mil" é inspirado na proposta do Carlos Karnas e sugestão do José Luiz Caon. Sem contar o título e este breve prólogo, o texto ficará aquém de 250 palavras. O texto em si, isto é, seu conteúdo, é resultado das discussões com o Luciano Mattuella.

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O psicanalista que se interessa pelos movimentos culturais e suas incidências na clínica deve olhar diligentemente para  o contexto do qual participa. Não raro encontramos textos de psicanalistas cuja interpretação da contemporaneidade não passa de uma negativização da época em que Freud viveu e a partir da qual construiu uma importante – e completamente articulada à prática clínica – crítica da cultura. Essa negativização opera da seguinte maneira: aprisionados às ferramentas teóricas consagradas e sem perceber que elas participam de determinado contexto, não se busca renovadas alternativas de pensamento para articular novas questões clínicas com o contemporâneo; o que resulta é a compreensão do atual como negativo do passado. E aí está toda a nostalgia do psicanalista que lamenta que o que era antes agora não é mais, que considera o contemporâneo “preocupante”, ignorando torpemente que o “antes” está impregnado pelo nazismo, apartheid e repressão ao feminino.
O laço social está “enfraquecido” ou modificado? O Outro, enquanto lugar da palavra e da tradição, foi “foracluído” ou teve seus códigos sociais repressores suavizados? Podemos ainda aceitar que o custo da civilização é a repressão?
Se não há mais a valorização do “clássico” (e, veja bem, esse é apenas mais um valor de uma dada época), se o que se faz “hoje em dia” é “efêmero”, a possiblidade de realmente abordar a nossa cultura passa pelo interesse no efêmero e seu conteúdo.

Nossa época não é especialmente difícil à psicanálise, mas sim aos psicanalistas que vivem em outra época.

20/11/2011

Por outra psicanálise: "Le Mur", Kandel e TCC

Comentei em outros ensaios ("Por que a psicanálise não é um equívoco") as opiniões de um colunista bastante cético em relação à psicanálise - mais, inclusive, do que a sua instrução deveria permitir. Não tive a intenção, contudo, de mostrar que a psicanálise é "melhor" que a psiquiatria médica ou as terapias comportamentais; quis apenas defendê-la dentro de certo espaço, pois não penso que ela seja mais indicável do que as suas "concorrentes" para o tratamento de todos os sofrimentos mentais. Nunca contra-indiquei, inclusive para analisantes, o uso de medicação ou de sessões de TCC, embora o alcance da psicanálise seja fundamentalmente diferenciado. É sobretudo necessário não confundir a concorrência - que é unicamente de interesse mercadológico - com o debate sério - que pode também parecer uma concorrência de saber pelo mesmo objeto. O psicanalista dono da verdade é tanto mais burro quanto menos conhece a verdade do outro - e vice-versa!

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A motivação deste ensaio parte principalmente da entrevista de Eric Kandel (link) e do filme "Le Mur: la psychanalyse à l'épreuve de l´autisme" (link). Em comum entre ambos é a colocação da psicanálise à prova diante das novas descobertas e métodos de tratamentos psis. Kandel crítica o próprio método psicanalítico, afirmando que ele se esquiva das comprovações científicas às quais outros tratamentos se submetem a fim de comprovar sua eficácia. O filme, por sua vez, foca diretamente na compreensão e tratamento do autismo, apresentando já em seus primeiros segundos o texto: "50 anos de progresso científico parecem não ter tido nenhuma influência no seu dogmatismo". Logo após é dito que há décadas que a comunidade científica "sabe" (já se "soube" que a Terra era o centro do universo, mas deixemos isso de lado aqui...) que o autismo é uma desordem neurológica e que a psiquiatria francesa, amplamente psicanalítica, ignora essas descobertas. Inúmeras entrevistas aparecem na sequência, quando psicanalistas falam e falam sem parar, caindo na armadilha de uma entrevistadora que os faz parecerem confusos na medida em que os induz a usar uma linguagem menos conceitual e mais popular. De qualquer forma, alguns momentos são constrangedores aos psicanalistas e à psicanálise e, não por acaso, justamente no que diz respeito ao que se chama de "função paterna" e "Nome-do-Pai". A noção guarda uma distinção de gênero que, ainda que consagrada conceitualmente a partir do contexto repressor e patriarcalista onde Freud viveu, não faz mais nenhum sentido atualmente - e é claro que os psicanalistas ousam muito pouco contrariar a palavra do seu "Pai" teórico. Desnecessário dizer que sobram quadros de Freud e Lacan nos consultórios dos entrevistados. Há posturas bastante diferentes entre os psicanalistas que falam no filme, mas predomina um dogmatismo que, quando observado "de fora", realmente não faz nenhum sentido e periga ser cômico.

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Não, não concordo com as conclusões do filme, que termina com um recorte específico mostrando como o método "PEC" é eficaz e como a psicanálise engana, ao invés de tratar, os autistas e suas famílias. O abalo no dogmatismo que a entrevistadora provoca ao colocar os psicanalistas contra o muro é, porém, mais do que frutífero. O filme peca, contudo, por não considerar justamente aquilo que Kandel denuncia com todas as letras: a crise da psiquiatria devido à falta de marcadores biológicos. Sim, há muitos dados neurológicos sobre o autismo, depressão, hiperatividade, bipolaridade e etc, mas nada se sabe sobre suas causas e prevenção. Os psicanalistas poderíamos ficar tranquilos ao pensar "bem, eles nos criticam, mas também não solucionaram a questão, então empatamos!". O fato é que, sim, a psicanálise parece emperrada de muitas maneiras  em certos dogmatismos. Não é ruim no sentido de que ficamos "para trás" na corrida e na concorrência, mas sim no sentido de que empobrecemos nossas práticas e o debate, ou  melhor, a pesquisa que nos concerne.