Acompanhei a vinda do Balbo a Porto Alegre em 2005 enquanto um estagiário que tinha a incumbência de filmar o evento. Era a minha maneira de conseguir livre acesso e assim matar minha imensa curiosidade de pré-psicanalista em formação. Uma única lembrança ficou. Em uma supervisão de caso clínico, Balbo - cuja experiência com a clínica de crianças autistas ele expõe e teoriza em diversos livros, ou seja, trata-se de um expert no assunto - diagnostica uma criança como "neurótica obsessiva" a partir de um desenho do pequeno paciente que se assemelhava ao intestino humano segundo, é claro, o olhar do psicanalista. Primeiro fiquei chocado de admiração e, depois, chocado com a minha admiração: aquela criança teria conhecimento de anatomia humana, isto é, possuiria uma mínima apreensão imaginária de seus intestinos? E se o tivesse, tratar-se-ia de uma obsessão? E se outro psicanalista visse ali, digamos, minhocas? E se outro ali enxergasse ovários, tratar-se-ia de uma histeria? Foram perguntas que ninguém no auditório pode (se) colocar. Não creio que somos colonos sem crítica o tempo todo, mas garanto que de minha parte foi excesso de transferência - além de muito jovem e inexperiente, não tinha como ver através da figura francófona e imponente que afirmava coisas com tanta convicção e parecia ter a anuência de pessoas mais experientes que ali também estavam. Calei-me. Calamos-nos. Até hoje nada me autorizo a dizer sobre isso, pois não sou um expert na clínica com crianças, sequer atendo crianças tão pequenas, e não tenho vários livros e anos de experiência sobre interpretação psicanalítica de desenhos.
Da topologia de Lacan, porém, eu posso falar.
Nesta semana, 7 anos depois, Balbo voltou a Porto Alegre e lhe foi demandada uma conferência sobre topologia. O conferencista fez o louvável esforço de articulação entre um caso clínico - novamente de uma criança, mas autista - com algo do referencial topológico lacaniano. Sobre o caso, pareceu-me uma leitura muito bem articulada e perspicaz de uma situação clínica desafiadora. Só tive a aprender com Balbo. Na articulação com a topologia, porém, e na maneira como (mal) se justificou após algumas perguntas, só tive a lamentar. Assim como em 2005, Balbo enxergou algo na paciente; dessa vez foi em seu nome que continha o significante tore (toro, em francês) e em um desenho que lembrava uma representação do toro utilizada por Lacan. Primeiro problema: a topologia não trata de figuras, mas de estruturas espaciais e de suas transformações. Que o desenho da criança lembre a imagem do toro e que isso autorize uma interpretação é completamente o avesso de qualquer intenção lacaniana no seu uso da topologia; esta é um esvaziamento do imaginário, um mais-além da imagem, uma tentativa de representação do próprio real. O toro tem infinitas imagens, mas apenas uma estrutura. O seguido emprego do termo "figura topológica" já demonstrava a compreensão errônea que o conferencista fazia da ferramenta. Os objetos topológicos não são o que eles demonstram em suas figuras e isso é elementar; assim como é elementar que o inconsciente não conhece a teoria psicanalítica - e esta ainda conhece pouco o inconsciente. A interpretação de Balbo só aumentou ainda mais essa hiância. Segundo: de que maneira o psiquismo da criança e a maneira como este se manifesta num desenho estariam em acordo com a teoria psicanalítica? Assim como a criança que teria desenhado intestinos sem conhecê-los, de que forma ainda mais estranha teria outra criança desenhado um toro? Como suas representações mentais se encaixariam como luvas à nossa teoria senão a partir das nossas associações?
"We won't get fooled again", again.